Era uma vez uma princesa que morava num castelo, no alto de uma montanha, encostadinho no céu. O castelo tinha torres mais altas do que as nuvens, torres de escadas bem compridas, que subiam rodeando até uma varandinha. Cada uma tinha um sino. Um grave, um agudo; no meio do castelo, onde a torre mais alta de todas as três se erguia, acima das brancas nuvens, onde nem sequer chovia, tinha um sino que era mudo.
A princesa que morava, mas bem pouco conhecia o castelo em que vivia, porque sonhava dormindo de noite, encobertada, mas sonhava mais de dia, enquanto só vagueava. De fato perambulava pelos pátios e salões. Lá, de noite, era frio, por isso nossa princesa dormia cheia de colchas, edredons, mantas e tias. As tias ficavam lá, afofando a cobertura, enquanto a menina estava em seu sonho perseguindo uma ou outra criatura.
Mas de dia, que formosura! O sol vinha e enchia os vitrais do tal castelo com luz, cores, alegria! A criadagem ciscava, de cá pra lá, num balé, seguindo a princesa a pé, na cola, sempre pertinho, esperando algum momento ouvir algum barulhinho sair de dentro da moça. Nem que fosse um suspiro. Nem que fosse uma grossura. Eles queriam ouvir era a voz de cotovia da bendita princesinha que agora só sonhava. Sonhava e se escondia.
Numa dessas caminhadas que fazia todo dia, a princesa percebeu uma placa que dizia: “É PROIBIDA A ENTRADA, SEJA DE NOITE OU DE DIA. ESTÁ SUJEITO A SER PRESO O ATREVIDO QUE SUBIR POR ESSA ESCADARIA.”
E agora, o que fazer? O que será que estava aquela placa escondendo? Tentava ela impedir que alguém ficasse preso num lugar estranho e horrendo?
– A princesa estremecia...
Tentava a placa manter preso um monstro bem monstruoso, que se pudesse fugir comeria cada olho que conseguisse atingir?
– A princesa se encolhia...
Será que a placa era velha, o lugar já estava lindo, o monstro já estava morto, de velhinho, e o enterro seria naqueles dias?
– A princesa se animou. De certo era isso! E começou a escalar a escada que se enroscava pela torre que subia acima das brancas nuvens, onde nem sequer chovia...
E o que ela encontrou? Nosso sino mudo, triste, solitário, empoeirado, pendurado sem badalo, o badalo ali largado... a corda toda poída... seus desenhos mal tratados... pobre sino... todo acabado...
Por que alguém largaria um sino tão precioso em tão péssimo estado?
Ela pegou seu lencinho e começou a polir uma das beiradinhas do sino. Foi vendo que apareciam desenhos, letras, e cores. A princesa se empolgou. Começou a imaginar seu sino cheio de flores, badalando sem parar, ali do alto da torre, sempre para anunciar um dia mais que perfeito que iria começar. E de noitinha, de novo, batendo suavemente, avisando que era hora de ir escovar os dentes e dormir um bom soninho, todo bem encolhidinho na sua cama quentinha toda apinhada de tias.
E enquanto imaginava, e com o lenço polia, o sol batia no sino e de repente a torre estava cheia de luz. E a menina ouviu, não sei como, bem baixinho, lá de dentro, uma doce voz dizendo: como é gostoso isso que você está fazendo...
A princesa se assustou!
Deu um pulo para trás.
Parou, olhou em volta. N-I-N-G-U-É-M!
De onde é que vinha a voz?
Seria mal assombrada a torre onde vivia o lindo sino dos sonhos da moça que o polia?
Ouviu chamar a criada, que já era meio dia e o almoço estava pronto, servido na prataria, espalhado pela mesa, enorme, em que comia sozinha nossa princesa. Quer de noite, quer de dia.
[TO BE CONTINUED]