Saturday, May 27, 2006

2006: OUTRA VEZ COPA E ELEIÇÃO?

Eu não entendo de futebol, muito menos de política. Isso, no entanto, não me impediu de tentar descobrir por que agora, todo ano de eleição tem copa do mundo. Ou será o contrário?
Em 1928, Jules Rimet (aquele da taça) propôs que se “celebrassem” os jogos de quatro em quatro anos. Duvido muito que, em Amsterdã, naquela época, alguém se importasse com o quadro eleitoral brasileiro.
O Uruguai ganhou a copa de 1930 (o ano do golpe), mas o Brasil foi desclassificado na primeira fase. Em 1958, no meio do governo J.K. (1956-1961), a inigualável dupla Garrincha-Pelé trouxe, pela primeira vez a taça, recebida das mãos do rei da Suécia. Goulart era presidente em 1962 (1961-1964), e conquistamos, no Chile, o bicampeonato. Em pleno golpe militar, a Seleção Canarinho arrebatou a Jules Rimet (que foi roubada, derretida, e virou enredo de escola de samba no país do carnaval). O presidente era Médici (1969-1974), e esse campeonato foi muito bem explorado politicamente pelo governo do Golpe.
O primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso contou com a ajuda do tetracampeonato de Parreira (1995-1998). O país, preocupado com as convulsões de Ronaldinho e desiludido com a derrota (vendida?) e vergonhosa para a França de Zidane, reelegeu F.H.C.(1999-2002). Lula chegou ao Planalto com a estrela do penta (2003-2006).
Enquanto pesquisava, tentando descobrir quem, inadvertidamente, instituiu essa piada, me lembrei que em 1988 foi promulgada a nova Constituição. Eles tiveram a oportunidade de dessacramentar a política do pão e circo. Mas não houve interesse. Afinal, “Em time que está ganhando não se mexe”. Há mais mistérios entre o final da ditadura, no governo Figueiredo e a eleição de 1994, do que pode imaginar a nossa vã filosofia...
2006 não será um ano difícil para nosso país. Essa nova seleção do Parreira tem tantas estrelas que promete trazer a sexta. Se isso vai afetar o resultado das urnas? Não ouso me pronunciar... Vamos esperar para ver.

Thursday, April 27, 2006

Naftalina - Vários

Sentou-se em seu lugar habitual de platéia amadora
E sorriu
Como que pra dar aos outros da assistência
A impressão de estar contente

E toca a mirar o trapézio

Entra o palhaço e
Lhe estende uma flor
Jocosa flor lilás
Feliz de ser pega
De se tornar real
Sorriem
Ela ainda mascarada
Ele piedoso e feliz
Como a ler o que circula em suas veias

Entra o mágico e
Transforma-lhe a flor num bouquet
De onde ela tira uma rosa
E lhe dá
Ao tocá-la, esta vira uma pomba
Que se vai
Como as bolhas de sabão...

Entra o domador de feras e a olha
Com um olhar repreensivo, tenso
Felino
E eis que a leoa dá à luz um ramo de flores
E surge em suas mãos um filhote de fera

Entra o faquir
Sai o faquir

E ela grita
“volte!”
“espere aí”
Mas é em vão pois o faquir é o contorcionista e este já está em cena

E ele, enquanto se contorce, joga com pratos e garrafas.

Mas uma escapa e cai sobre o leão que dormia e se desfaz num balão azul de gás
Que sobe
Sobe
Sobe
E lhe devolve o olhar ao trapézio onde
Uma mulher aguarda o rufar dos tambores

Seu coração rufa
Ao vê-la andar na corda bamba

Seu grito falta
Ao vê-la saltar no trapézio

Mas baila
Com seu parceiro
Faz piruetas inacreditáveis
Até que tiram a rede para o salto mortal
Uma tripla cabriola
E ela deve cair nas mãos do rapaz

Rufam novamente os tambores e ela salta
Vai e vem
Vai e vem
E solta
Uma pirueta
Duas três

Mas, não!
A mão do rapaz escorrega e ela cai
Cai sobre a platéia que se esvai
Desvanece
E ficam as duas a se olhar

Não!
Ela se vê
Se reconhece
Suas roupas
Seu cabelo
É ela caída ao chão aos seus pés
Espatifou-se nas cadeiras
Nas maneiras
No sonhar

Chegou ao circo
Comprou o ingresso e um saco de pipocas
Sentou-se em seu lugar habitual de platéia amadora
E sorriu.


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Talvez me engane
Mas o brilho
Dos teus olhos
Dos teus mares
Teus luares
Me contaram em jasmim
- Dialeto apaixonado -
Que cultivas
Um nariz
De namorado

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Ano novo nasceu
Que lindo!
Seja bem vindo o pirralho
Brincando com seu chocalho
E rindo, rindo, rindo

Ano velho partiu
Que lindo!
Damos adeus ao velhinho
Que nos deu tanto carinho
E saiu rindo
Aquele riso matreiro de quem diz:
Escapei a tempo...

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Ainda que me usasse um pouco mais
Não me importava
Que te usei também

Ainda que mentisse um pouco mais
Não me importava
Que menti também

Ainda que fingisse um pouco mais
Não me importava
Que fingi também
Que viver é fingir, também

Ainda que ficasse um pouco mais
Não me importava
Que fiquei
E você se foi


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O fazedor de estrelas, de contas
Me deu um colar de constelação
E se foi
Sem saber que
Conseguiu me laçar

O fazedor de contas
De estrelas
seguiu
brilhando luares
- que ele semeia luares
onde quer que vá -
Chuviscando o céu de brilhantes
Amantes
Tantos, que nem pude contar
Chuviscando a cabeça de sonhos

O fazedor de sonhos - estrelas da mente -
Pode nunca mais voltar
E mesmo assim
Estará sempre aqui, guardado
- que tem umas pessoas que passam
e ficam muito mais que vão -

Talvez um dia
O fazedor de sonhos
Resolva trocar de profissão
E fazer realidades

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Enantiomorfas
Personalidades
Ambigüidade

Enantiomorfos
Conflitos
Enantiomorfos eus
Conflitantes
Conflitam-se
Entre si
Atiram-se pedras
Até que uma delas
Quebre o espelho

Enantiomorfas mortes

Morte das ilusões
Das brigas
Morte

Nas catedrais
Crianças choram
Crianças mortas
Gemem
Nos umbrais

São só crianças
E já as fazem chorar

Enantiomorfas lágrimas
Pendem
De enantiomorfos olhos

Crianças
Sós
Só crianças

Crianças crescem
Convivendo com conflitos
E as culpas
Crianças crescem
E conquistam uma
Ideologia de liberdade

Só que seu enantiomorfo
Ainda jaz algemado
Aos conflitos
E as culpas
Ela cospe
Na cara
De sua enantiomorfa

E essa saliva de raiva
Contamina a ideologia
De liberdade
Da criança
Que apodrecem
E sucumbem
Precariamente

Enantiomorfos mundos
Ruem
Por uma mesma causa.


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Chegar bem tarde, se acabou a festa
A noite é alta, o tempo é meu escravo
O teu sorriso, nada teu me resta
A rosa mansa viu morrer o cravo.

Chegar bem cedo se morreu a festa
No meu sorriso, escravo de você
A noite é mansa e se acabou o tempo
Do cravo ter a rosa sem sofrer.

Chegou a morte nesta festa escrava
Tão manso o tempo vi sofrer as horas
E esse sorriso nosso de outras vezes
Se acabou tão cedo e sem demora.

Chegou a morte nessa vida nossa
Nós dois morremos um pro outro, apenas
Resta o orvalho no botão da rosa
O orvalho no velho cravo, apenas.

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Queria saber porque me invade.
O sono que nunca termina.
A contemplação do ócio.
A fraqueza perante os obstáculos.
A fraqueza perante a vida.
A covardia de correr da batalha.
A conformação absoluta.
Nenhum sonho para daqui a dez minutos.
Só o vazio.
Só o nada.
Só os olhos pesando muito.
Mas não adianta deitar, porque não durmo.
Apenas jazo silente com a cabeça perturbada sobre os travesseiros.

De repente, no meio de muitas coisas boas, ela retorna e me assombra.
Parecia mesmo que já tinha passado. Que tinha sido um pesadelo, uma lembrança ruim.
Já quase me encontrava. Já quase.
Agora, não sei mais o que a traz.
Talvez eu mesma a chame. Incessantemente.

Sozinha, sem trabalho, sem faculdade, sem amigos, sem família, sem pai, sem mãe, sem expectativas, sem motivos.

E não quero me agarrar a ele, como a uma tábua de salvação.

Naftalina - Vários

Era uma cortina de vendavais. E o pequeno homenzinho azul saiu de lá de trás com um ar meio zangado... “Senhoras e senhores, Boa noite”. Apareceu então aquela lagartixa púrpura que costumava fazer o número do trampolim e arreganhou o bocão. O ratinho do bumbo deu um pulo pra trás, gritou alguma coisa em japonês e sumiu numa cortina de fumaça.
Palmas...palmas...palmas
O pequeno homenzinho azul, agora cinza, fechou a bocarra da lagartixa e tirou do chapéu um tigre de bengala, velhinho e míope. Botou a lagartixa na parede e tirou uma foto da platéia. O tigre saiu andando, esbarrando em tudo, que estava sem os óculos. Tropeçou num joanete meio atrapalhado com os cadarços da sandália havaiana e caiu dentro da bacia de estrelas. Foi parar num mundo todo cor de fogo-fátuo.
Meio assustado, achou melhor tirar as lentes de contato pra enxergar melhor a paisagem. Um mundo novo se mostrava a ele, e decidiu chamá-lo América, em homenagem ao capitão américa, que era seu herói preferido.
Assim que chegaram os índios em sua cabana e provaram dos três potes de mingau, ofereceram escravidão de sua tribos em troca de não terem que comer mais mingau. O tigre aceitou e chamou os amigos de inca, maia e asteca, já que seus nomes eram impronunciáveis na nossa língua.
Saiu em expedição para achar o caminho de casa e achou o caminho pras índias: flores e bombons.Acabou por gostar da vida que levava e desistiu de voltar. Por acaso , numa noite de fortes ventos, resolveu tomar banho de cachoeira, que sua língua estava meio dolorida. Achou um homenzinho azul com uma rede de caçar borboletas que o aprisionou. Deixou cair as lentes. Ficou tudo escuro. Não lembra de mais nada. Parece que teve um sonho longo onde foi muito feliz. Além disso, está mesmo muito velho pra pular naqueles bambolês gigantes. Se ao menos achasse as lentes de contato que comprou na feira de artesanato das fadas ciganas...


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Para Bárbara

Amiga que me foi um dia grande
E nem se lembra mais de tanto que passou
Me explica essa ausência tua de quem parte
Sabendo que o barco afundou

Amiga que me foi um dia a única
Me conta o que te fiz pra merecer
Castigo tão imenso nessa vida
Continuar vivendo sem você

Perdoa seja lá o que te fiz
Ou diz-me ao menos que acabou, amiga
Seja amiga última vez
Por mim, por você, por todos nós

Liberta tua amiga dos grilhões
Em que a saudade das pessoas se transforma
Cada vez que se perde alguém querido
É como se a própria alma fosse morta

Meus mapas, minha bússola, minhas armas
Ficaram contigo de última vez
É quase impossível prosseguir nessa jornada
Se não pegá-los outra vez

Meu caminho, meu rumo, minhas defesas
Ficaram contigo da última vez
Não magoe novamente esse amor que te ama
Que ele cansa de amar e morre de vez

...Parece bobagem mas queria muito
Ter você aqui comigo fazendo poesia
Cantando frère Jacques...

Sei que ainda sonho, amiga
E esse coração estranho a mim que carrego no peito insiste em continuar
O corpo já se foi
A mente já se perde

Não te peço pra voltar
Peço que fique, mesmo em ausência
Presença que ainda pulsa aqui
Fracamente

A vida em mim fugiu
E você costumava saber onde ela ia se esconder


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A Pequena menina de branco


A pequena menina de branco andava perdida pela rua quando encontrou um astronauta vestido de bailarina que perguntou a ela o que faziam as pessoas nesse planeta.
Ela disse que como ele era um artista ele devia entender as pessoas e as coisas de modo diferente dela, uma simples menina de branco andando perdida na rua.
Ele contou a ela que era um alienígena de uma galáxia distante e que vinha em paz, tentando encontrar os pontos coincidentes das duas civilizações.
A menina riu e convidou o astronauta vestido de bailarina pra tomar um chope. Ele aceitou e disse que no planeta dele tinha uma bebida parecida, mas que não era tão gostosa.
Os dois conversaram muito e resolveram ir pra casa. A pequena menina de branco disse que ia com ele, já que ela estava mesmo perdida.
Chegaram na porta do prédio dele e surgiu o convite pra subir. Ela disse que tudo bem, so precisava ajeitar uma coisa. Então pôs a mão no bolso de trás (a roupa dela parecia um daqueles macacões de mecânico...) e puxou uma coisa que parecia uma arma, apontou pra ele e o pulverizou. Deu um suspiro profundo e disse "todos iguais". Virou as costas, olhou a hora no relógio de pulso, virou o olhar pro céu e fez um assobio daqueles com os dedos dentro da boca. Esperou a nave chegar e voltou.
Anotou no diário de bordo assim :

VISITA PLANETA AZUL. PROCURA MACHOS POSSÍVEL CONTATO
PARA REPRODUÇÃO. TODOS IGUA IS.

A nave bateu num cometa enquanto ia pra Júpiter, porque esqueceram de ligar o piloto automático. Quando acharam a caixa preta, resolveram mandar nova expedição ao planeta azul pra checar o que tinha acontecido. Era a nonagésima equipe em três anos venusianos que batia em alguma coisa e tinha a mesma gravação na caixa preta.
A pequena menina de branco andava perdida pela rua quando encontrou ...


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Sentou-se. Escondeu o olhar com o pretexto de ajeitar os óculos. Pediu chá e torradas. Pegou um livro e esticou as pernas no banquinho apropriado que estava à sua frente. Fingiu que lia enquanto muitos milhares de idéias lutavam em sua cabeça para saber quem iria aflorar.
O chá chegou. Colocou o adoçante, mordiscou uma torrada e molhou os lábios na xícara fumegante. Silêncio. Sem grilos, sem carros, sem Mozart. O som do nada ecoava em seus ouvidos. A calma. O retrato da paz.
E, de repente tudo treme. O chá derrama sobre seu vestido novo, cor de pérola e escorre pelas suas pernas enquanto o movimento de erguer-se era só uma intenção. O terremoto passou.
O garçom traz um lenço embebido numa mistura aromática qualquer com o qual ela limpa a bagunça. O angorá creme saiu da cesta e veio aninhar-se em seu colo, meio trêmulo, mas ainda felino. Não houve gritos. Não houve danos. Apenas a mancha do chá de jasmim na lateral da coxa direita. Enquanto isso, milhares de pessoas se casam e se divorciam, milhares de crianças nascem e pessoas morrem, estadistas são depostos.
Ela para, fecha o livro, toma o resto do chá, mordisca outra torrada, pega o gato e toma o caminho de casa. Talvez tudo aquilo não seja pra ela, e ela não faz, certamente, parte deste mundo. Decide deixar os semelhantes aos semelhantes.
O garçom corre para lhe devolver o chapéu acetinado, do tecido do vestido, com um ramalhete de rosas chá e uma telinha na frente, dentro do qual estava um par de luvas mas não mais a encontra. Ele vira as costas com os olhos marejados, aspira o perfume das luvas e acaricia ternamente o chapéu. Sente, então, o angorá creme a roçar-lhe as pernas. Pega o gato e chora. Ela não voltará mais.


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Across the fields


"Well they left then in the morning a hundred pairs of wings in the light moved together. In the colors of the morning I looked to the clouds in the cirrus sky and they’d gone. Across the marshes, across the fields below. I fell though the vines and I hoped they would catch me below in the morning. If only to take me with them there, tell me the part that shines in your heart on the wind. And the reeds blew in the morning. Take me along to the places you’ve gone when my eyes looked away. Tell me the song that you sing in the trees in the dawning. Tell me the part that shines in your heart and the rays or love forever, please take me there." (10000 Maniacs)


Across the marshes
Is where you throw me now
And I can't avoid this thing of missing you
For what you've been
So long ago, so soon
I'm sorry I felt that sort of feeling we don't feel to explain
We just run and meet the wall
I broke my dreams apart
I broke what we could have been
Into so many pieces
I can't find
Just come and take a seat
As you have done since we first met
It's so bad to feel you that distant
Worst than this of knowing we will never meet again


Will you ever let me climb your walls
To escape these dungeons I've been prisioner
Myself I found so many nights in clear abandon
Leaving the things I thought important far behind
Finding so many things to be the new important ones
I changed my values and I changed my habits
The clothes I used to use no more
The body I used to feel no more
The body I saved these days for you
These months
These Xmas evenings in new year's day's
These valentine's that fade away
The paradise I tried to reach
Touching your hand
Your soul so deep
You couldn't stand

So many nights to stay
Don't run
Don't fade away
I'd enjoy so much if we could be together
If you could be with me
And let me reach again
The oblivion

Besides all this I think of you
As you should think of me
Not always
Not too much
Not prisoner
But enough not to forget
We've been together long ago in dreams
And just right now in facts


Eu tento mesmo te enxergar com outros olhos
Com outras caras de faróis de orvalho
Mas quando calo vejo que a verdade
É coisa de cinema
Que me roubaste a cena
Que eu ia falar
Que eu ia mentir
Farsear outra vez
Como dizer que não consigo mais acreditar
Que posso mesmo Ter fingido um dia
Um mês um ano
Uma vida de pura covardia
Alforriada estou pela tua vontade
De Ter ficado aqui e me feito encontrar
Aquilo que perdi faz tanto tempo ainda
E que julgava nunca mais recuperar



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Par de Sóis


Par de sóis
Pôr de sais
Mar de voz
Cor de paz
Par de sóis
Céu de ais
Sou a sós
No teu cais
Nos anzóis
Sem rivais

Par de sóis
Musicais

Soa o som
Dos sinais

Sua o som
Dos faróis

Pare o sol
Para o mar
Pare o céu
Para amar

Sem você
Pôr de sóis


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Inominado Inacabado I

A boca segue o corpo
Os olhos, o caminho
Não sei se navega sozinho
Não sei se se entrega, absorto
Tem horas que penso ser tua
E dias que quero ser porto
Não sei se o amor é carinho
Não sei se o carinho convém
Tem horas que a alma se entrega
Em outras, não é de ninguém
Eu busco você nas cobertas
O cheiro, o gosto, e não tem...
Tem horas que sinto saudade
Em outras, eu sinto também

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O que há em mim é sobretudo cansaço,
Nem disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente –
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida que deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles;
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser ...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto ...
Para mim, só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecunda, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Ïssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço ...

(Fernando Pessoa) Poemas – 11ª edição


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Domingo é dia de luto
por mais uma semana
que perdi

Mais sete vezes vinte e quatro horas
que se arrastam
em segundos

Nem consigo respirar domingo

O sol me dói na alma desolada
crianças brincam,
suas gargalhadas ecoam
como farpas

Pra quê prossigo eu
com todas as feridas
todas as dores
a vida corroída
tantos dissabores
já não têm mais nexo

Me entrego, então
ao fim já pressentido
já não me fala a boca
não me escutam os ouvidos
o corpo já não sente
amortece
o resto desse terminar


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A última folha do meu caderno
que estava guardada
eu vou rasgar

Não quero mais
ter onde pôr
a vida

Eu não preciso mais
viver
porque em mim
só há cansaço

breu
tristeza
desilusão

Vou destruir também
minhas canetas
pra não cair
em tentação
e rabsicar u´as letras
nas paredes
pelo chão

vazio que me toma
o corpo
a morte vai tomando
a carne
é só questão de tempo...


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Não sei como aconteceu, mas acho que deixei de acreditar.
Não deixei de acreditar em nada especificamente, deixei apenas de acreditar. Nas pessoas, em Deus, em mim, na vida...
Não me lembro em que parte da minha vida minhas lembranças passaram a parecer cenas de um filme, partes de uma estória contada por outra pessoa.
Não me lembro quando foi que acordei e não estava mais disposta a tentar. Mas tenho certeza de que fingi pra mim mesma, por muito tempo, que estava tudo indo bem, que isso era apenas parte da coisa toda. Que tudo ia melhorar, e logo entenderíamos o objetivo dos acontecimentos. Balela!
Eu procuro hoje, cada manhã, um motivo pra me levantar do sofá esgarçado e duro onde durmo. E cada manhã tem amanhecido mais tarde. Não consigo saber por onde começar as coisas, então não começo. Passo muito tempo pensando o que eu fiz pra tudo acontecer tão errado, me culpo, culpo os outros um pouco, então me culpo novamente por ter permitido que fizessem comigo tudo que fizeram. Quando dou por mim, já está de noite.
Então durmo. Mas só quando os olhos já estão ardendo de tanto olhar a televisão. Antigamente nem via novelas. Por muitos anos, quando fui morar sozinha, nem tive televisão em casa. Não me fazia falta. Bastava música. Agora nem ouço mais música.
Às vezes esqueço de tomar banho, de escovar os dentes, da hora do remédio, de tirar a roupa de dentro da máquina, de tirar a roupa da corda, de lavar a louça. Mas esqueço por dias. Já deixei uma leva de roupas na máquina tantos dias que deu bolor. Esqueço mesmo. Vou fazer alguma outra coisa e acabo não voltando pra terminar o que comecei.
Aí me canso. Sabe, eu nunca tinha tido palpitações. É uma sensação estranha de que o coração vai parar de repente, de tanto esforço. Ele começa a bater forte no peito e vai batendo dentro do ouvido, nas costas, nos ombros, vai batendo, batendo... Se fosse poesia, seria Maiakowsky “Nos outros eu sei onde habita o coração: é no peito, todos sabem disso. Comigo a anatomia ficou louca, eu sou todo coração, ele bate em todo o corpo!”. Maiakowsky devia ter palpitações.
Aí falta ar. Nossa! E então eu já me deitei e já estou rezando e pedindo a Deus ou a qualquer demônio de plantão que me carregue, porque eu não tenho forças pra me matar. Mas que me termine. Nada de consciência depois de morrer. Nada de reencarnação, nem de se lembrar do passado. Borracha mesmo. Deve haver alguma situação onde alguém se encarregue de deletar permanentemente alguma existência dos registros. Principalmente deletar a consciência. E acabar. Nada de eternamente seja-lá-o-que-for. Nada de para sempre. Só o nada, perfeito, intocável, silencioso nada. Uma vez ou outra eu imploro.
Sabe, eu venho tentando detectar a falha no sistema, o curto circuito. Mas não encontro nada decisório, nada do tipo depois que.... então...
Podia dizer que o Gauderer foi o primeiro a me diagnosticar, mas tive uma médica homeopata que me botou na terapia (que infelizmente durou pouco) para aprender a lidar com as coisas. Ela era um pessoa sábia. Ela enxergava longe. Já tinha previsto o que ia dar, e quando me despedi, que estava indo embora, fugindo do inescapável, ela tinha os olhos cheios de lágrimas.
E dentro de mim se repete como um ladainha sempre a mesma coisa: isso não pode ser normal. Não posso acreditar que eu possa viver mais um dia desta forma. Então durmo novamente e acordo. Em algumas noites tenho pesadelos inacabáveis, em outras parece que nem dormi. Mas quando acordo, parece que passei a noite carregando pedras. Só que nem cansada consigo mais dormir. Me levanto e me arrasto por algumas horas até deitar de novo, e às vezes isso dura muito pouco. Às vezes nem me levanto. Só saio mesmo pra ir ao banheiro. E volto e me deito de novo.
Não sei como aconteceu, mas acho que deixei de acreditar.
Não deixei de acreditar em nada especificamente, deixei apenas de acreditar. Nas pessoas, em Deus, em mim, na vida...
Deixei de acreditar que eu possa sair dessa prisão que minha existência se tornou.
Deixei de acreditar que amanhã será melhor, porque amanhã será outro dia. Mais um dia.
E eu sei que já desperdicei vida demais nessa morte-em-vida que venho vegetando.
posted by iury at Domingo, Outubro 17, 2004 0 comments links to this post

Pseudo Hai Kai

a tarde geme
o corpo busca colo
enquanto velo



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Para Camus

Sobre os rituais...Eu decidi desbanalizar a minha vida.Seguir o caminho contrário de todas as pessoas, que correm atrás de construir uma rotina para depois viver querendo escapar dela.Decidi emoldurar as coisas. Enfeitar. Então enchi tudo em volta de mim de coisas bonitas. Cheiros gostosos. Cores.Símbolos. Sons. Sons são muito importantes. Não consigo mais imaginar minha vida sem trilha sonora.Pense nos melhores filmes que você já viu. O que faz vc se lembrar mais rápido da cena tão especial? A trilha, certo? Então.Não saio mais da cama sem me espreguiçar. Aprendi com meus dois gatos. O dia sempre começa melhor se temos consciência de nosso espaço. Não tomo café. Não gosto. Parei de me obrigar. Aliás, parei de me obrigar definitivamente.Não sinto mais culpa nem remorso quando digo não.É o fundamental, acho.Não quero, não faço.Tento todos os dias conseguir me lembrar e todas as coisas que tenho pra fazer. Sempre esqueço. Desisti de marcar na agenda, porque não olho. Então estou humilde o suficiente para dizer aos amigos: Pode me ligar no dia, pra me lembrar.? Amigos entendem. Ah! Amigos... Não devemos esquecer... Eles são o que temos de mais precioso.Me afastei de todos os meus amigos quando fui embora. Ninguém escapou. Agora que consegui me descasar, fui procurando um a um. Acabei juntando pessoas que não se viam há muito tempo, e estamos todos em contato permanente.Não deixo passar um dia sem conversar com pelo menos um amigo. Afinal, quem tem ombro também chora...Passei a comer menos, porque a ansiedade foi diminuindo a partir do momento que eliminei meu principal foco de stress: o marido. Então voltei a fazer antigas atividades que me davam prazer. Uma sombra de mim vem se desenhando. Aos poucos, vou tentando preencher os espaços vazios. Talvez consiga até retomar a faculdade. Quem sabe de amanhã?É... parei de me preocupar com amanhã. Se começo a pensar obcessivamente em Deus e a origem dos seres, mudo logo meu assunto pra chocolate, sexo, ou arrumo uma coisa bem trabalhosa pra fazer. Tenho lidado com a depressão como se fosse uma criança levada. A gente vai tentando distraí-la, e, quando vê, já dormiu... (muitas vezes a gente dorme primeiro, mas depois de um tempo acerta o ritmo).E vou seguindo assim. Dia após dia, sem contabilizar os segundos. Chá, líquidos, alimentação leve, exercício, cachorro, plantas. Tudo o que puder descarregar meu organismo sobrecarregado de melancolia.
A vida tem pressa, Camus. E nós estamos nos enfraquecendo onde devíamos crescer e superar. Deixa eu dizer melhor. Nós estamos crescendo e nos superando tanto que não conseguimos perceber. Na hora em que você conseguir respirar de novo, com a cabeça erguida, vai olhar pra trás e dizer: nossa! como essa doença tão cruel pôde me lapidar tanto como pessoa, indivíduo, consciênia? Como pode tanta dor trazer tanto bem?
Mas isso é pra depois da tempestade. Porque ela vai passar. Já passou. Está só um vento forte ainda, como um rastro. Nem olhe mais. Não precisa. Você sabe que consegui mais uma vez. Agora tem que ficar com os radares espertos. E tratar de evacuar a área ao menor sinal de chuva. Se mude pra dentro de você. Saia pra ir ao cinema com um amigo de infância. Jogue bola na chuva. Nade num rio. Coma algodão doce. Sente na calçada. Ria muito de piadas sem graça e muito mal contadas. Ria de segurar a barriga pra parar de doer. A piada é só uma desculpa. Se divirta. Não faça dos seus dias uma obrigação, porque não somos obrigados a viver. Transforme seu trabalho num divertimento. Sempre tem uma maneira de melhorar.É isso que tenho chamado de rituais.
Porque eu entrei num ônibus em 1992 e acordei há alguns dias, completamente diferente do que me lembro de mim. "Não me reconheço mais olhando as fotos do passado. O habitante do meu corpo, esse estranho dublê de retratos..."É assim que tenho mantido o controle. Não sou exemplo. Apenas relato.E antes que eu me esqueça, mais uma coisinha. Pare de refletir. Por enquanto. Temporariamente ceda à tentação de ser comum, mais um na multidão. Quando estiver pronto, o raciocínio te domina de novo. É certo.



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Ah, minha Vó,
Que bom saber seu colo me embalando
Seus braços estendidos para mim,
Me convidando a derramar
As lágrimas que guardo dia a dia
Nessa caminhada

Que força eu tenho em ti, minha Vozinha
Quando tropeço e sinto que comigo estás
Sempre caminha comigo, minha Vó
Porque preciso saber que encontro seus sorrisos
Que sinto seu perfume quando já sou só

Me dá os teus conselhos, me aponta os caminhos
Vai comigo enquanto retiro os espinhos
Um por um
Dói, mas é preciso a ferida curadora
Cada espinho é semente que em novas lavouras
Muitas flores ainda há de nos proporcionar
Me dá teus conselhos, me aponta os caminhos
E se eu errar o rumo, fica ainda um pouquinho e ora comigo
Eu hei de acertar

Ah, minha Vó,
Que bom saber teu canto me cuidando
Enquanto estes versos, em prece, fui formando
Um desenho com letras para te ofertar

Aceita de mim, é o que tenho agora
Toma meu amor, e vamos caminhar.



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Para minha Tia Faninha

Feliz dia dos mestres, Maestrina
Que rege a vida como sinfonia
E coordena a orquestra
Onde todos nós soamos.

Um só desafinar e está a postos
O colo largo, os ombros
Qual muralhas a nos esperar

Feliz dia dos mestres
A quem nos ensina
Dia após dia
A viver
Aprender
E sonhar!


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Um vidro de chumbinho é mais barato
que o par de sapatos
que enfeita a vitrine
e até que este dia termine
talvez meus boatos
me dominem

Um vidro de chumbinho é mais fácil de achar
que toda a imensidão do mar

Um vidro de chumbinho é mais leve de carregar
que todas as cruzes do mundo
que todas as cruzes que trago
atadas
a mim

Um vidro de chumbinho é mais concreto
que esse teto que cobre o meu pensamento
que um dia eu sei meu
e no outro é um tormento

Um vidro de chumbinho é mais bonito
que o machucado que pulsa aqui aflito
querendo curar
mas no que faz a casca
alguém dá um jeito de me descascar

Um vidro de chumbinho
é mais poético
que o patético discurso repetido
nas entrelinhas, ao pé do ouvido
que a esquelética retórica invertida
nas mentirinhas, no esquecido

Um vidro de chumbinho é mais romântico
que o melhor amor que tive
e que não tenho ainda
e que em cânticos eu teço as esperanças de encontrar

Um vidro de chumbinho é um ponto final nesta rotina
de acordar e dormir e comer e viver dia após dia
como quem já decorou toda a cena
e o problema maior é saber se decido arriscar
trocar o sofrimento desconhecido
pelo que tenho me convencido que é só tormento.



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Ah! Sim!
As horas! Tantas
Horas são fardos
Que minha garganta
Não sabe esperar

Segundo após segundo sofro
A agonia da morte
Em células minhas
Que me deixo pilhar

É como respirar embaixo d´água
Olhar os minutos a passar
E nada desta enfadonha
vida terminar

e de repente sinto um
brisa passando
sorvo o ar, preencho meus pulmões
arfando
olho o relógio e
recomeço a contar.



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A espera de encontrar alguém
O tempo que se vai pensando nele
O sorriso que se perde na lembrança
O perfume, a voz que já não mais ecoa em nossa mente

A falta que te faz um outro encontro
Tudo que não se disse e que faltou falar
Tudo que não se soube e não se vai nunca perguntar

A saudade daquele sentimento bom que vai passando
E dia após dia vai se dissolvendo
À iminência de um encontro já palpita menos o coração
Já nem mais se crê ser possível voltar a vê-lo

Até que se esquece completamente de tudo
E parece que nunca isso aconteceu
tudo engolido pela neblina do esquecimento
Sobrou apenas teu nome...



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- Às vezes a gente precisa
fazer silêncio
para tentar que nos ouçam –

Hoje calo. Palavras não cabem mais.
Todo o empenho já se esgota.
Sem paixão, a vida jaz morta.
E nada faz pulsar meu coração.

Hoje calo. Palavras não têm mais sentido.
Não há direção a tomar.
Enquanto penso, canso mesmo até de me desesperar.

Hoje calo.
Palavras surtiram nenhum efeito.
E não há mais feitos
Que possa encenar.

Fim da cena

Calada, hoje, digo mais
Que nunca soube expressar
Que sempre tentei fazer entender
- calada -


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Há dias

Há dias em que acordo
tão cansada
que não consigo nem
abrir os olhos

dias em que me deito
tão sozinha
que não consigo nem
fechar os olhos

sorrisos me espreitam
pelas frestas
brechas
- não os deixo entrar-

o peso se acumula sobre os ombros
- meus escombros que
eu quis guardar –

carregos noite adentro essa
estação
sem um suspiro
um momento de pesar

e embora eu saiba
que bagagens
a gente leva
algumas coisas que embrulhei
não quero mais

Naftalina - Acontece muito por aqui

Acontece muito por aqui
Das pessoas sorrirem
Tentando fingir
Que se amam

Acontece muito por aqui
Das pessoas fugirem
Tentando fingir
Que se amaram

Acontece
Que não sou daqui.