Sentou-se em seu lugar habitual de platéia amadora
E sorriu
Como que pra dar aos outros da assistência
A impressão de estar contente
E toca a mirar o trapézio
Entra o palhaço e
Lhe estende uma flor
Jocosa flor lilás
Feliz de ser pega
De se tornar real
Sorriem
Ela ainda mascarada
Ele piedoso e feliz
Como a ler o que circula em suas veias
Entra o mágico e
Transforma-lhe a flor num bouquet
De onde ela tira uma rosa
E lhe dá
Ao tocá-la, esta vira uma pomba
Que se vai
Como as bolhas de sabão...
Entra o domador de feras e a olha
Com um olhar repreensivo, tenso
Felino
E eis que a leoa dá à luz um ramo de flores
E surge em suas mãos um filhote de fera
Entra o faquir
Sai o faquir
E ela grita
“volte!”
“espere aí”
Mas é em vão pois o faquir é o contorcionista e este já está em cena
E ele, enquanto se contorce, joga com pratos e garrafas.
Mas uma escapa e cai sobre o leão que dormia e se desfaz num balão azul de gás
Que sobe
Sobe
Sobe
E lhe devolve o olhar ao trapézio onde
Uma mulher aguarda o rufar dos tambores
Seu coração rufa
Ao vê-la andar na corda bamba
Seu grito falta
Ao vê-la saltar no trapézio
Mas baila
Com seu parceiro
Faz piruetas inacreditáveis
Até que tiram a rede para o salto mortal
Uma tripla cabriola
E ela deve cair nas mãos do rapaz
Rufam novamente os tambores e ela salta
Vai e vem
Vai e vem
E solta
Uma pirueta
Duas três
Mas, não!
A mão do rapaz escorrega e ela cai
Cai sobre a platéia que se esvai
Desvanece
E ficam as duas a se olhar
Não!
Ela se vê
Se reconhece
Suas roupas
Seu cabelo
É ela caída ao chão aos seus pés
Espatifou-se nas cadeiras
Nas maneiras
No sonhar
Chegou ao circo
Comprou o ingresso e um saco de pipocas
Sentou-se em seu lugar habitual de platéia amadora
E sorriu.
..................
Talvez me engane
Mas o brilho
Dos teus olhos
Dos teus mares
Teus luares
Me contaram em jasmim
- Dialeto apaixonado -
Que cultivas
Um nariz
De namorado
..................
Ano novo nasceu
Que lindo!
Seja bem vindo o pirralho
Brincando com seu chocalho
E rindo, rindo, rindo
Ano velho partiu
Que lindo!
Damos adeus ao velhinho
Que nos deu tanto carinho
E saiu rindo
Aquele riso matreiro de quem diz:
Escapei a tempo...
..................
Ainda que me usasse um pouco mais
Não me importava
Que te usei também
Ainda que mentisse um pouco mais
Não me importava
Que menti também
Ainda que fingisse um pouco mais
Não me importava
Que fingi também
Que viver é fingir, também
Ainda que ficasse um pouco mais
Não me importava
Que fiquei
E você se foi
..................
O fazedor de estrelas, de contas
Me deu um colar de constelação
E se foi
Sem saber que
Conseguiu me laçar
O fazedor de contas
De estrelas
seguiu
brilhando luares
- que ele semeia luares
onde quer que vá -
Chuviscando o céu de brilhantes
Amantes
Tantos, que nem pude contar
Chuviscando a cabeça de sonhos
O fazedor de sonhos - estrelas da mente -
Pode nunca mais voltar
E mesmo assim
Estará sempre aqui, guardado
- que tem umas pessoas que passam
e ficam muito mais que vão -
Talvez um dia
O fazedor de sonhos
Resolva trocar de profissão
E fazer realidades
..................
Enantiomorfas
Personalidades
Ambigüidade
Enantiomorfos
Conflitos
Enantiomorfos eus
Conflitantes
Conflitam-se
Entre si
Atiram-se pedras
Até que uma delas
Quebre o espelho
Enantiomorfas mortes
Morte das ilusões
Das brigas
Morte
Nas catedrais
Crianças choram
Crianças mortas
Gemem
Nos umbrais
São só crianças
E já as fazem chorar
Enantiomorfas lágrimas
Pendem
De enantiomorfos olhos
Crianças
Sós
Só crianças
Crianças crescem
Convivendo com conflitos
E as culpas
Crianças crescem
E conquistam uma
Ideologia de liberdade
Só que seu enantiomorfo
Ainda jaz algemado
Aos conflitos
E as culpas
Ela cospe
Na cara
De sua enantiomorfa
E essa saliva de raiva
Contamina a ideologia
De liberdade
Da criança
Que apodrecem
E sucumbem
Precariamente
Enantiomorfos mundos
Ruem
Por uma mesma causa.
..................
Chegar bem tarde, se acabou a festa
A noite é alta, o tempo é meu escravo
O teu sorriso, nada teu me resta
A rosa mansa viu morrer o cravo.
Chegar bem cedo se morreu a festa
No meu sorriso, escravo de você
A noite é mansa e se acabou o tempo
Do cravo ter a rosa sem sofrer.
Chegou a morte nesta festa escrava
Tão manso o tempo vi sofrer as horas
E esse sorriso nosso de outras vezes
Se acabou tão cedo e sem demora.
Chegou a morte nessa vida nossa
Nós dois morremos um pro outro, apenas
Resta o orvalho no botão da rosa
O orvalho no velho cravo, apenas.
..................
Queria saber porque me invade.
O sono que nunca termina.
A contemplação do ócio.
A fraqueza perante os obstáculos.
A fraqueza perante a vida.
A covardia de correr da batalha.
A conformação absoluta.
Nenhum sonho para daqui a dez minutos.
Só o vazio.
Só o nada.
Só os olhos pesando muito.
Mas não adianta deitar, porque não durmo.
Apenas jazo silente com a cabeça perturbada sobre os travesseiros.
De repente, no meio de muitas coisas boas, ela retorna e me assombra.
Parecia mesmo que já tinha passado. Que tinha sido um pesadelo, uma lembrança ruim.
Já quase me encontrava. Já quase.
Agora, não sei mais o que a traz.
Talvez eu mesma a chame. Incessantemente.
Sozinha, sem trabalho, sem faculdade, sem amigos, sem família, sem pai, sem mãe, sem expectativas, sem motivos.
E não quero me agarrar a ele, como a uma tábua de salvação.
Thursday, April 27, 2006
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