Tuesday, August 19, 2008

QUANTO ENTORPECEMOS?

Entorpecente: [...] que ou o que age no sistema nervoso central, provocando estado de entorpecimento, de embriaguez, e que, mesmo tolerável em doses altas pelo organismo, freq. causa dependência e progressivos danos físicos e/ou psíquicos (diz-se de droga, medicamento ou outra substância); estupefaciente (Houaiss online)

A mídia divulga, por todos os seus veículos, os grandes riscos causados à saúde pelo uso continuado de entorpecentes. A mesma mídia que adverte, promove o tabagismo, o alcoolismo e muitas outras formas lícitas ou ilícitas de entorpecimento. A causa de tudo isso é, possivelmente, o capitalismo. Seja pelas assombrosas cifras atingidas pela indústria destes produtos, ou pela completa falta de perspectiva que se instalou nos indivíduos, certamente, o modelo de governo vai acabar levando a maior fatia da culpa.
Minha mãe tem 72 anos, fuma há 60, e, sob risco de perder uma das pernas em conseqüência da dependência do cigarro, afirma sentir-se traída por Hollywood, que ensinou sua geração, através de suas divas, que fumar era bonito, charmoso, elegante, uma forma de afirmar a independência da mulher. Interessante isso, de afirmar a independência ficando dependente de uma droga. O cigarro comprometeu suas artérias, seus pulmões, seu coração, de forma irremediável. O mais incrível de tudo é a agonia de ver uma pessoa lúcida e esclarecida escravizada por um rolo de papel que se queima. Como uma catarse, o fogo consome seus problemas, seus pensamentos. A carne sucumbe à mente enfraquecida pela toxina e ela, como milhares de outras pessoas, não consegue parar.
Mesmo longe da capital do cinema, gerações inteiras se perdem na tentativa de “se encontrar”. Cada dia mais baratinados com o fluxo incessante de imperativos consumistas, opilados pela incapacidade se suprir suas “necessidades” materiais, intoxicados de frustrações e medos, encontram nos entorpecentes uma alternativa à realidade para a qual não foram preparados. Não somos preparados. Fugimos da dor de várias formas: lendo, jogando, assistindo TV, tendo prazer. O dependente é apenas aquele que escolheu (infelizmente) a forma errada de escapar (momentaneamente) da verdade, o que é indispensável para seguir vivendo.
Resta de tudo a certeza de que anestesiar é fazer cessar a dor, e enquanto houver homem e sentimento haverá sofrimento, garantindo o lugar dos tóxicos em nossas prateleiras, gavetas e bolsas. Há mercado para a alienação e, como o Neoliberalismo é democrático, temos liberdade de comprar todo o tipo de aparato que nos faça mais frágeis, mais susceptíveis, mais domináveis.

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